O início da relação cinema-psiquiatria

agosto 28, 2008

 

O primeiro filme a fazer uso da figura de um psiquiatra foi Gabinete do Dr Caligari, filme de 1920, do diretor Robert Wiene, na Alemanha.

Este é considerado o filme manifesto do expressionismo e por isso, por muito tempo a estética expressionista foi chamado caligarismo.

O roteiro foi escrito com a intenção de denunciar o poder das instituições, no filme representadas pelo psiquiatra Caligari, mas foi feita uma alteração e o resultado é diferente daquele do roteiro.

A hipnose e sonambulismo são bastante utilizados no filme e isto já era o reflexo da obra de Freud no cinema.

O Gabinete de Dr. Caligari e outros filmes expressionistas como Nosferatu são os precursores dos filmes de terror, principalmente os filmes B americanos.

Na época em que o filme foi filmado, a Alemanha vivia num estado de espírito negativo e com uma série de inquietações, resultados da destruição da Primeira Grande Guerra Mundial.

O estilo do filme reflete esses sentimentos e frustrações na sua própria estética. O cenário é opressor, com linhas distorcidas e não harmoniosas. Luzes e sombras também são muito usadas para transmitir os sentimentos dos personagens.

O fato da relação psiquiatra e cinema ter se iniciado com um filme de terror é algo muito revelador e até hoje esta áurea de mistério ronda o psiquiatra e pacientes psiquiátricos nos filmes. Por outro lado, existem filmes que exageram ao criar uma figura do psiquiatra como ser humano ideal, sem defeitos. Esse maniqueísmo segue a psiquiatria no cinema até hoje , com algumas exceções.

 

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O Cheiro do Ralo – Cinema e Psiquiatria

agosto 18, 2008

O Cheiro do Ralo, filme de Heitor Dhalia, baseado no livro de Lourenço Mutarelli, é um filme que mostra a vida do personagem Lourenço, dono de uma loja de antiguidades.

O personagem principal tem características de personalidade muito bem definidas, que ficam claras em todos os seus relacionamentos e atitudes. Sua personalidade também se revela pelo modo como anda, veste, se move e até pela própria profissão.

O diretor se utilizou de recursos de cenário e câmera para mostrar um mundo que expressasse as características psicológicas da personagem. A câmera está sempre parada e os cenários são muros e portões por onde Lourenço anda se maneira uniforme diariamente.

Lourenço é um homem de rotinas rígidas, come todo dia no mesmo local, na mesma lanchonete, em horários fixos. No seu trabalho, exerce o seu sadismo com as pessoas que vão levar os objetos mais variados para vender. Ele se sente incomodado com o cheiro que sai do ralo de seu banheiro no trabalho. Sempre explica às pessoas que aquele cheiro não é dele, mas que vem do ralo.

Com o passar do filme, ele passa a gostar do cheiro do ralo, conforme sua personalidade fica mais exposta e com menos disfarces.

Seus relacionamentos com as pessoas são superficiais. Ele é frio e distante. Tem uma noiva com quem rompe já no início do filme e diz que nunca gostou dela, não demonstra nenhuma preocupação ou sentimento por ela. Ela se revela uma mulher histérica e dramática, que se preocupa mais com o fato dos convites já estarem na gráfica do que com o relacionamento. Lourenço afirma que nunca gostou de ninguém, nem da mãe. A única pessoa a quem dedica afeto é o pai,ou idéia do pai,já que nunca o conheceu, pois abandonou sua  mãe ainda grávida.

Durante o filme, desenvolve uma grande paixão, a nádega da garçonete da lanchonete onde come todos os dias. Seu interesse é só nisso e não na pessoa dela, já que ele nem mesmo se lembra do seu rosto, fato que fica evidente quando começa a conversar com outra garçonete achando que era aquela que conhecia. Lourenço gosta de controlar as situações. Na sua profissão pode fazer isso colocado o preço que achar adequado nos objetos. Comprar é uma forma de exercer domínio, por isso não quer sair com a garçonete, mas quer pagar para ver seu corpo, para ter o controle sobre ela e não ter que se envolver afetivamente.

Lourenço tem uma personalidade com fortes traços obsessivos, que na teoria psicanalítica se relaciona a uma fixação na fase anal de desenvolvimento psicossexual, segundo a teoria de Freud. Nesta fase, a criança aprende a controlar as fezes e com isso surge o prazer pelo controle. O fato da nádega ser o objeto de escolha do personagem também remete simbolicamente à fixação anal.

Tem uma relação forte com objetos, partes, o que fica claro através da relação que cria com olho, que ele inventa que é de seu pai que morreu na guerra. Lourenço passa a reconstruir o pai com pedaços, como uma perna biônica que compra e com o olho.

O comportamento de Lourenço vai se tornando mais baixo e sujo no decorrer do filme,  então, ele desiste de tapar o ralo e abre um buraco no chão do banheiro. Envolve-se em relações sexuais que envolvem dinheiro, agride um cliente. Sente que o ralo dá poder a ele e que o poder é afrodisíaco. Através do ralo se conecta com seu eu- verdadeiro e com seu pai.

A última frase do filme é bem ilustrativa do caráter anal de Lourenço: ”e então ninguém entra e ninguém sai”. Em seguida, um primeiro plano na nádega da garçonete, reforça esse conteúdo.

 

Site oficial: http://www.ocheirodoralo.com.br/

 

Sessão MovieMobz do Cheiro do Ralo

Data: 21-08(quinta) às 22hs

Local:Cine Bombril

Ingresso: 6 reais

DVD O Cheiro do Ralo no Submarino